Quem, assim como eu, foi criança nos anos 80, e quem, assim
como eu, foi uma criança não muito popular entre outras crianças nos anos 80,
só queria ter um melhor amigo na vida: ET. Feio, desproporcional, pescoçudo,
desengonçado, dado a bebedeiras e com tendências ao cross-dressing, se ET fosse
humano seria um sério candidato ao bullying, prática mais do que na pauta nos
dias de hoje, mas que já existia não somente nos anos 80, mas desde sempre.
Nada mais natural que crianças que na escola eram chamadas
de ETs pedissem em suas orações à noite que o próprio aparecesse em seus
quartos e as levasse para um passeio de bicicleta, só que por cima de suas
casas. E pais horrorizados descobriam que seus pimpolhos não queriam mais
ganhar de aniversário ou Natal fofos ursinhos de pelúcia, mas bonecos do...ET.
Os anos se passaram, as crianças esquisitas cresceram (pelo
menos fisicamente), e eis que, em pleno 2012, o cinema – sempre ele – traz para
aquelas crianças oitentistas, hoje balzaquianas, que trocaram os ursinhos por
ETs, um novo objeto de desejo: um ursinho de pelúcia.
No filme TED (idem, 2012), este foi o presente de Natal do esquisito John
Bennett (Mark Wahlberg) quando tinha oito anos. E ele pediu tão
ardorosamente aos céus que o fofo ursinho que ganhara fosse capaz de falar mais do que “I love you” (e mesmo assim só quando lhe apertassem a barriga), que seu
desejo foi realizado.
Tal prelúdio se passa, adivinhem, em 1980 e poucos. Os anos
também se passam no filme e encontramos um John Bennett adulto, ou melhor, com
30 e poucos anos. Ted continua mais falante do que nunca. E (bem) chegado num
narguilé, álcool e mulheres (sim, mulheres, e quanto mais cachorras – e não no
sentido zoófilo – melhor). E, claro, Ted continua mais amigo do que nunca de John.
E segue o filme, um tratado sobre a amizade e
amadurecimento, e com todos os clichês de filmes sobre amizade e
amadurecimento. Mas este é o primeiro filme sobre amizade em que um dos amigos
é um urso de pelúcia. E um urso de pelúcia que fuma narguilé, enche a cara e dá as cantadas
mais grosseiras possíveis em suas pretendentes. E que ainda vem recheado de
referências da cultura cinéfila dos anos 80: FLASH GORDON (idem, 1980) é a mais
explícita, mas tem muitas outras, todo o tempo – nem MAMÃEZINHA QUERIDA (MOMMIE
DEAREST, 1981) e ANNIE (idem, 1982) ficaram de fora.
Quanto a mim, nos meus 30 e poucos e barbudo, já sei o que
pedirei de Natal.
ET (idem, 1982)
Direção:
Steven Spielberg
Com: Henry
Thomas, Drew Barrymore, Dee Wallace, Peter Coyote etc.
TED (idem 2012)
Direção: Seth MacFarlane
Com: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane (voz de Ted)
etc.
